ostracismo

Para determinar quem era indesejável na cidade e deveria ser expulso, os nomes eram gravados em pedaços de cerâmica (ostracon), e lançados numa urna. Esta é a origem da palavra ostracismo, que significa excluir, por consentimento geral, da sociedade

18

de
setembro

Voltei

Eu lhe falei que iria abolir de uma vez do meu vocabulário falante, gritante, ante silêncio, termos com “nunca mais” “sempre” negócio e tal. Sim, porque eu sempre, ôooooo de novo! Ah deixa pra lá! Eu só quero dizer que preciso voltar a escrever! Preciso até mesmo para salvar meu casamento!

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16

de
maio

Passou a chuva…

Passou a chuva e o sol saiu lambendo os pingos que ainda restaram nas calçadas e ruas. A moça ruiva terminava de pintar um quadro memória imaginativa e dava retoques dizendo que já estava pronto como uma nostalgia de quem pariu, com um vazio melancólico de não ter mais nada a fazer por tempo indeterminado. Era um sábado a tarde, o primeiro com sol depois das águas e enchentes que castigavam as tardes e madrugadas. As cortinas e tapetes voltavam para o lugar limpo e seco das casas. Poderia abrir os braços com a sensação de caminhar sem rumo para o ar. Alguém levanta uma mangueira de água lavando o terraço, tirando lama das paredes. As flores abrem-se e eu mesma sinto uma alegria de viver como renascer, como querer aproveitar cada minuto de respiração. Percebo que não há mais muito tempo para escurecer e estou cansada das noites. 

Era sentar no lado direito da praça para ver a movimentação frenética dos sábados de sol voltando. O homem colocava um disco de vinil para tocar e preparava uma caipirinha com gelo, bebia devagar porque o ar quente da tarde acompanhava a mistura delicadamente preparada. Oferecia aos passantes e embolsava a troca. Cadeiras iam se juntando, cervejas geladas, palavras e risadas embalavam comentários. O teatro abre as cortinas e o movimento de caras maquiadas dava sentido ao show do amendoim, ovos de codorna, graxas de sapato, cds piratas, fiéis subindo a escadaria da igreja matriz.

Porque era sábado de tarde depois das chuvas foi que despertei para não dar audiência para a televisão e ver o caminho que se fazia até a minha imaginação liberta. Porque se abriu dentro de mim uma cratera profunda deixada pelas correntezas das águas sem espaço. A vontade de reconstrução, de mudar plantas de lugar, de fazer um jardim para habitar borboletas coloridas e abelhas.

Porque eu vi o sábado depois das chuvas da janela do hospital onde um frágil homem se recuperava e me deram uma cadeira salmão para acompanhá-lo. Era uma vontade de sair e a certeza de não voltar a ver este misterioso recomeço de um novo tempo. Nada mais voltará. Só preciso calar este movimento de busca e ansiedade. É, vou precisar de alternativas para sábados.    

13

de
maio

Parte II

 

O que ela amava acima de tudo era está perto da terra, com os pés descalços e vestidos enormes  e estampado cobrindo seu corpo se fosse enfeitar o jardim. Sentava no chão juntando as dobras do tecido em meio às pernas. Procurava uma sombra para proteger sua pele branca e sensível e escolhia o melhor lugar para ver o rio. Juntavam-se a ela pessoas simples e acampadas por ali que passavam com trouxas de roupas para lavar ou alumínios para ariar.  Paravam e conversavam, um pouco tímidas, depois mais à vontade, juntavam-se a ela. Olhavam-se e combinavam entre outras que se tratava de alguém diferente, que podia ensiná-las sobre a vida, um pouco mais além do que viviam. Sabedoria que nascia e completava o espaço naquele instante. Muitas vezes ela parava pensativa como se estivesse meditando ou querendo um milagre, olhava dentro dos olhos das pessoas como se rezasse por elas. Nesse momento ela nada dizia não se movia, mas interiormente parecia dizer o que todos ouviam. “Eu não sou nada, sou igual a todos. Um dia triste outro alegre, um dia sereno outro intranqüilo, comida bem feita ou panela queimada, um dia sangue, vermelho vivo, outros tantos outros em cores azuis. Igual a todos, humanamente igual”.  Transmitia uma sensação no corpo a humilhar-se com tanta dignidade. Ela agradecia a todos os bons dias e dava-lhes bons dias com uma alegria profunda e meiga de criança. Quando chamada a falar, todos que esperavam da sua boca alguma coisa que soasse frágil e serena… Seu corpo se transformava, saia do fundo da sua meiguice e respirando trêmula, jogava as palavras ao vento com um alcance ao coração dos homens, forte e sábia como fontes de água borbotoante  misturando-se à canção da cachoeira das  águas  represadas do riacho. Falava com um ardor que fazia seu coração acelerar-se sem ritmo. Falava sobre a fome, citava Josué de Castro, mudava a constituição, dava alternativas, falava em direitos.

Aí então ela purificava a noite e os corações. Ninguém mais dormia sem lembrar que a bandeira levantada garantia a comida no prato das gerações futuras. 

 

27

de
fevereiro

Parte I

    1.  

        Eu pisava a terra e percebia que o sinal do telefone estava fora da área de cobertura. Era um clarão das 10h da manhã e meu cabelo parecia ainda mais castanho, já também perdendo o brilho não fosse o sol. Olhando o açude onde a água fervia ao calor e fazia reflexos com as sombras das palmeiras, colocava a isca no anzol e jogava a vara de pescar. Insistia até cansar, os olhos pesavam um pouco com o cansaço e o silêncio, um mosquito picava minha pele branca que rapidamente inchava e avermelhava. Percebia que o peixe não me queria que o mundo não me quisesse, que  tudo o que eu queria era ir encontrar com o mergulho das sombras das palmeiras que deviam materializar-se embaixo das águas. Ninguém por perto a não ser um homem que ao construir uma cerca transportava mourões. E como se não bastasse aquele silencio e espera inspirava lembrança, pensamentos distantes, causava – me soluços e as lágrimas submissas e pacientes juntavam-se às águas turvas do açude. Que fazer de uma espera inútil? Como ter certeza que virá? Olhava um enorme amontoado de pedras à frente e pensava… Se tiveres fé… Imaginava dizendo ao monte para sair e ele suditamente a obedecer. Nunca mandei, não tive empregados, pedia timidamente. Será que futuramente erguerei minha altivez e alguém ou alguma coisa atenderá os meus mandados?     

  • 18

    de
    fevereiro

    Encontro dos rios e de você.

    O dia estava lindo para um passeio e acordei com uma saudade bem grandona do meu irmão Itamar que já foi morar num mundo melhor ao lado de grandes e fiéis amigos. Sempre que acontece isso vou para o “Encontro dos Rios” aqui em Teresina, onde suas cinzas foram jogadas ao vento como foi o seu desejo em vida. Lá eu sinto sua energia, sua presença, seu carinho e choro a saudade que dói no peito. É a segunda vez que Jeovah me acompanha nesse encontro, até porque eu sinto que o Jeovah parece um pouco com ele no que diz respeito ao seu cuidado comigo. Eu estava feliz e triste ao mesmo tempo mas o dia estava perfeito, com um solzinho leve, um friozinho, que eu adoro. Parei, na entrada do restaurante flutuante onde se tem uma vista maravilhosa do encontro dos rios disse a Jeovah: “nós vamos fazer uma oração de agradecimento porque temos consciência de que esses são alguns dos dias mais felizes das nossas vidas, além do mais está fazendo um ano que estamos juntos e que estivemos nesse lugar”.

    Parece piegas, mas acho fundamental ter essa consciência do quanto somos felizes e agradecer por isso, de vez em quando. Como diz Vinícius:

    A felicidade é uma coisa boa e tão delicada também, tem flores e amores de todas as cores, tem ninhos de passarinhos, tudo de bom ela tem e é por ela ser assim tão delicada, que eu trato dela sempre muito bem

    16

    de
    fevereiro

    Re em conto

    Pois é tem muito homem…

    Estou indo para uma nova semana, começando as aulas, faculdade e muitas outras atividades, pegando a mala, coração levíssimo!!! 

     

    Então ele olhou minha pele, meus cabelos, rosto e corpo. Observou o tempo passado como se estivesse fazendo uma trilha numa estrada perdida. “Eras mais magra, o cabelo longo, o sorriso continua igual”… E eu sem lugar para as mãos, a fala na garganta, um redemoinho de imagens na memória.
    “Porque voltou?” já ia explicando, justificando, mas ele foi falando das coisas passadas, enfiando o dedo na ferida a muito cicatrizada. “Por vários anos lembrei teu beijo e agora volta sem pedir licença. Sem perguntar se eu te queria novamente na minha vida. Posso te falar das noites insones, da casa deserta. Do virar e desvirar na cama procurando teu corpo. Do cálice amargo na madrugada. Preciso dizer dos devaneios, do meu olhar insistente para o telefone mudo. Das preces para esquecer esse amor. E, agora queres me contar por onde andaste no exato momento que consegui dormi?”
    De repente me pergunto o que estou fazendo aqui e digo que tudo mudou que sofri também, que enfrentei fantasmas na noite; que, que… Nada, silêncio. Novamente as mãos sem lugar, o engasgo. As palavras de consolo ficaram definitivamente perdidas no caminho. Tento falar das noticias, da evolução tecnológica, da ultra-modernidade da mulher, lembro que estamos em outra época.
    Analiso rapidamente quem é esse cara sentado aqui, cheio de cobranças e dúvidas. Olha para mim, para o relógio, repassa as chamadas não atendidas no celular… Não sabe se me abraça, casa comigo ou segue sua vida já planejada. Muda do pode ser para nem pensar.
    Vou fazer um café. Lembro que ele gostava do café amargo e bolacha água e sal. Fico olhando o fogo e ele o celular. A xícara do café aproxima nossas mãos e vem o abraço tímido e demorado. O café esfria… O celular toca… As palavras soam no ouvido: “quanto tempo, porque foi embora, porque voltou”.
    É claro que não será mais como antes. Nunca será!
    Ainda tenho tesão por ele, pela risada aberta, os pêlos no peito, a maneira tímida e desleixada de chegar com a camisa sobre o ombro. Mas meu espaço foi preenchido pela esposa e filhos e definitivamente não aprendi a ser uma mulher ultra-moderna daquelas que se adaptam a um relacionamento descomprometido com um velho amigo.
    Eu vou ficar aqui fazendo o ritual para um banho demorado e relaxante, creme para rosto, área dos olhos, hidratante para o corpo… Vou ficar por aqui com meu café e bolacha água e sal. Novamente, continuando o meu ciclo das noites vazias a procurar o que eu nem sei se perdi.

    11

    de
    fevereiro

    O Retrato

    Eu?

    Não tenho culpa de ser o que sou

    Conhecer lugares

    Possuir lembranças

    Desvendar segredos

    Entender emoções

    São riquezas imponderáveis

    Foi me dada a oportunidade de viver de forma invejável

    O teto de estrelas

    Piso de girassóis

    Travesseiro de pedra

    Àgua da cachoeira

    Vou deixar o meu retrato 

    Nessa tela sem fundo.

     

    6

    de
    fevereiro

    Letra do meu samba

    Fevereiro - carnaval
    Fevereiro - carnaval

     Minha escola estava tão bonita.
    Era tudo o que eu queria ver - Benito de Paula

    Acredita em mim quando digo que já era quase carnaval naquela tarde e que eu há tempos não tinha fantasia, não sonhava com as cores nem escrevia um samba?
    Estava tão claro! Da janela, descia com o olhar as escadarias do metrô. Cruzava e descruzava as pernas impacientes na sala de espera, folheava uma revista. Via-me na bilheteria, queria ir embora, irritava-me com a demora, com o avançar das horas. Sabia que ia chover e ao menor sinal de chuva em são Paulo, todos aceleram o passo. Olhava para a saída e pensava que era hora. Não ia mais esperar, volto amanhã, tenho que ir…
    Você entrou na sala, olhou para mim e eu fiquei ali grudada no tapete com todo o magnetismo da cor dos seus olhos, com a emoção na boca explodindo com a chuva que começava a cair. A água, escorrendo ansiosa pelas escadarias. Os passos apressados na rua e eu ali com a circulação sanguínea alterada. As pernas com vários pesos a mais, parada, presa, estática, dentro de ti, dos teus olhos onde era minha própria casa, o meu guarda chuva.
    Acredita em mim quando digo que foi tua voz mandando-me entrar na sala que me tirou daquela estranha inércia, invadiu meu cérebro e desacelerou todos os comandos até então conectados com a chuva, a escadaria, a volta pra casa?
    Fiquei todo o carnaval esperando o samba que teus olhos ensaiaram. Fiquei tocando a harmonia como a bateria que sacode a arquibancada, com a alegria de quem viu o novo. Mas a fantasia não desfilou, se desconectou dos acordes, duvidou e foi vestir o sol.
    Porque eu não disse a letra do meu samba, você não fez o arranjo, desfilou sozinho no Anhembi e o meu carnaval não aconteceu.
    Diga a mim que virá outros carnavais, diga que faremos outro samba, diga que é preciso esperar mais, um pouco mais, o tempo que for, para que a chuva caia, para que eu não volte pra casa.
    Porque com você aprendi uma nova educação sentimental. Deixar que o tempo dure, que a chuva caia. Acompanhar a serenidade das horas. Harmonizar o ritmo, para não lhe desencontrar.
    Aprendi que o amor chega assim sem avisar, sem dar tempo para retocar a maquiagem, para por uma roupa mais adequada. Aprendi que quando o amor chega não dá tempo para arrumar-se para a festa.

     PONTO: Neste pré carnaval ando mesmo com síndrome de Maysa!!! Relembrando fatos… antigos carnavais.  

    2

    de
    fevereiro

    Mal Secreto

    Mal Secreto

    Composição: Waly/ Macalé

    Não choro
    Meu segredo é que sou
    Rapaz esforçado
    Fico parado, calado, quieto
    Não corro
    Não choro
    Não converso
    Massacro meu medo
    Mascaro minha dor
    Já sei sofrer
    Não preciso de gente
    Que me oriente
    Se você me pergunta:
    Como vai?
    Respondo sempre igual:
    Tudo legal
    Mas quando você vai embora
    Movo meu rosto do espelho
    Minha alma chora
    Vejo o Rio de Janeiro
    Comovo, não saldo, não mudo
    Meu sujo olho vermelho
    Não fico parado
    Não fico calado
    Não fico quieto
    Corro, choro, converso e tudo mais
    Jogo num verso
    Intitulado o mal secreto

    E assim começo a semana querendo jogar fora, gritar, explodir esse mal secreto. Eu sei que depois da explosão dessa bomba que me fez chorar e sofrer eu vou juntar os estilhaços para sobreviver! Não preciso de quem me oriente, já sei sofrer! 

    Eu preciso analisar direitinho o que está me fazendo sofrer, a energia que está me levando pra trás, porque não é possível!!! Enfim hoje uma resposta legal, começando tudo bem; aquele estágio que eu sonhei e programei pra esse ano pintou pra mim numa bandeja!… Que sorte a minha! Num disse!!! Num falei!!! Agora é enxugar as lágrimas porque o azul do mar tá chegando e o céu vai brilhar. Meu mundo é outro amigo, luz de mais pra quem vive com lampião a gás!    

    30

    de
    janeiro

    Por não estarem distraídos

     

    Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

     

    Clarice Lispector

     

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